Rodrigo da Rocha Loures. Presidente da FIEP - PR, fala sobre "Dar vida à sociedade civil" » Societária - 9/11/2007

Fonte: Revista Leis & Negócios
O fortalecimento da sociedade civil é indispensável para fazer avançar a democracia e garantir um desenvolvimento econômico, humano e social sustentável. No Brasil, o poder executivo tem historicamente monopolizado a vida e a cena do país. Exemplo atual disto são os espaços da mídia, as medidas provisórias do Congresso e a voracidade fiscal sobre as pessoas e empresas (só no ano passado o governo sugou R$ 817 bilhões da população).
Para sustentar este modelo, as diversas instâncias do executivo habituaram-se a cooptar não só os poderes legislativo e judiciário, mas também entidades influentes da sociedade civil. Para isto, se valem, por vezes, de expedientes moralmente condenáveis. Este quadro de virtual institucionalização da dominação e correspondente servilismo consentido retrata bem nosso subdesenvolvimento político, causa-raiz do nosso lamentável atraso e de todas as mazelas econômicas, sociais e ambientais daí decorrentes.
O fortalecimento da sociedade civil passa necessariamente pela redução da carga tributária e dos juros, e por uma desobstrução dos gargalos institucionais e burocráticos que emperram a dinâmica econômico-social. O sistema público precisa ser forçado a racionalizar seus gastos, deixar mais recursos nas mãos dos indivíduos e proporcionar mais espaço para as iniciativas dos empreendedores. E nós, empresários, temos um grande desafio: conquistar a competitividade das nossas empresas em escala global e, ao mesmo tempo, ajudarmos o país a romper com as amarras do seu subdesenvolvimento histórico.
Empresa sustentável é aquela que dá lucro. No entanto, não adianta a indústria apenas exercer a sua responsabilidade econômica (pagando impostos, criando empregos, produzindo bens e serviços e dinamizando a economia), a sua responsabilidade ambiental (respeitando os recursos naturais) e a sua responsabilidade social (melhorando a vida das pessoas e criando ambientes favoráveis ao seu desenvolvimento). Isso tudo é necessário, por certo, mas insuficiente, se não exercermos também a mais crucial das nossas responsabilidades, a responsabilidade política.
Para assumir a sua responsabilidade política o empresariado não pode mais se limitar ao comportamento tradicional de financiar candidaturas, articular bancadas parlamentares para defender os interesses do seu setor e encomendar estudos para encaminhar às autoridades. Isoladamente, essas medidas não são eficazes e estão muito aquém das nossas potencialidades de protagonistas do desenvolvimento.
Urge mudar o padrão de relação entre Estado e sociedade no Brasil. O mundo político não vai nunca se auto-transformar. Logo, este papel cabe à sociedade civil através do aprofundamento consciente e organizado de sua participação no processo político e o surgimento de lideranças capazes de conduzir novas práticas. Ao empresariado, especialmente o industrial, cabe ocupar um lugar de destaque nesse processo e dar um exemplo de firmeza e responsabilidade.
Nós temos o direito e mesmo o dever de influir na pauta política nacional, regional e local a partir da mobilização de forças sociais expressivas. Fortalecendo nossas organizações de representação empresarial podemos dar uma contribuição decisiva para que a sociedade brasileira se articule em torno de uma agenda estratégica que, partindo da defesa da democracia e do desenvolvimento sustentável, possa chegar ao detalhamento de propostas substantivas em todos os campos relevantes da atividade do estado.
Esta ação inspirada no bem geral precisa contar com o desenvolvimento de entidades genuínas e competentes que representem livremente os empresários. Associações, sindicatos, federações e confederações empresariais para serem legítimas representantes da força empreendedora da sociedade têm de atuar com autonomia e independência da interferência estatal de qualquer nível ou origem.
Esta ação deve também atrair os cidadãos, as pessoas individualmente, conectando-os a redes voluntárias de participação cidadã. Porque – é forçoso reconhecer – muitas das entidades da sociedade civil acabaram se organizando burocraticamente e adotando modelos verticais de funcionamento semelhantes aos dos governos, não contribuindo para mudar o padrão de relação entre Estado e sociedade.
Assim, sem excluir as nossas entidades, é necessário agora dar um passo além, falando diretamente às pessoas e a elas dando voz por meio da sua inclusão horizontal em redes democráticas. Desta maneira, nós empresários, atores essenciais da modernidade, podemos colaborar na edificação de um modelo de sociedade democrática, participativa e progressista, proporcionando um futuro melhor para todos. É hora de dar vida à sociedade civil no Brasil.

Rodrigo da Rocha Loures. Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná – FIEP
Presidente do Conselho de Política Industrial da CNI

Fonte: Revista Leis & Negócios. Ano 1, n. 4, nov./dez de 2007

 

 
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